Soluções de inteligência artificial (IA) são empregadas na logística de diversos setores, como serviços de entregas e mobilidade no trânsito, entre outros. Mas, apesar de plataformas como Uber, iFood e outras que atuam com tais modelos garantirem que são a salvação de nossas vidas, o mérito não é todo da tecnologia. Sem o conhecimento especializado dos usuários, essas plataformas apresentariam graves problemas.

Um estudo dos pesquisadores Nada R. Sanders e John D. Wood, publicado na Harvard Business Review, mostra que os melhores resultados para os negócios que envolvem soluções de inteligência artificial não dependem apenas de softwares ou hardwares, mas estão diretamente relacionados à integração entre humanos e algoritmos – essa, sim, a chave para se obter uma performance de qualidade superior.

Os pesquisadores acompanharam gestores de empresas que se destacam pelo uso de IA, como Google, Apple e Siemens. Concluíram que, para além da tecnologia, fazem diferença as estruturas organizacionais que usam a tecnologia para trazer à tona o que há de melhor nas pessoas. “Os recursos humanos podem ser aumentados com os poderes da máquina. O segredo para funcionar é o próprio modelo de negócio, onde máquinas e humanos são integrados para se complementar”, apontam.

Os sistemas de entregas e de mobilidade trabalham apoiados pelo conhecimento local dos condutores. Os usuários alimentam os sistemas. O Waze, por exemplo, é uma plataforma colaborativa, na qual os usuários imputam alertas, informando não apenas sobre o trânsito, mas também sobre ruas alagadas ou interditadas.

Será que as pessoas pegariam um Uber que não sabe a diferença entre o caminho que passa por uma zona de risco e um caminho que, embora mais longo, mais demorado e mais caro, seja um trajeto seguro? Provavelmente, não. Um entregador precisa saber não só os melhores caminhos, mas onde pode parar para esperar a pessoa que vai buscar a comida. Embora analógico, um exemplo clássico é do carteiro, que sabe que, em uma determinada rua, o número 600 é, na verdade, o antigo 230, e vem antes do 450, porque a numeração foi alterada e as pessoas não mudaram o número no muro das casas.

Esse conhecimento “local” especializado deveria ser muito mais valorizado pelas empresas do que realmente é. Afinal, sem a multiplicidade de informações adicionadas pelos motoristas, as plataformas de mobilidade não passariam de uma geografia plana e idealizada, implementada por uma visão algorítmica do espaço urbano, onde não existem atritos, apenas oferta e demanda.

No caso da mobilidade, cabe ao motorista reunir as duas visões do espaço urbano: a abstrata e a fundamentada. No entanto, o motorista se torna completamente invisível no sistema, embora tenha uma participação relevante na atualização das condições do trânsito em tempo real, permitindo que os sistemas de inteligência artificial possam recomendar, dinamicamente, as melhores rotas.

E não é só na mobilidade urbana que os indivíduos têm papel essencial para o aperfeiçoamento dos algoritmos. No passado, o Facebook colocou no ar a ferramenta Trending Soon, para mostrar os assuntos populares na rede, depois demitiu a equipe que fazia a curadoria e deixou o serviço a cargo dos robôs e seus algoritmos. Como consequência, várias notícias falsas e bizarras ganharam destaque. Depois de quatro anos, o Facebook anunciou que estava removendo a ferramenta, debaixo de questionamentos dos usuários sobre a confiabilidade dos conteúdos.

É preciso ter clareza que os dados são importantíssimos, mas não trazem consigo respostas para todas as perguntas. Algoritmos são eficientes no reconhecimento de padrões. Entretanto, pessoas não seguem padrões – é aí que entra a sensibilidade e a experiência humana.

 

Para se aprofundar no assunto: https://bit.ly/2XJf6y6

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