Você já ouviu falar em policiamento preditivo? Talvez o nome soe estranho, mas se você já teve contato com a obra Minority Report, do autor Philip K. Dick, posteriormente adaptada para o cinema por Steven Spielberg, certamente sabe do que estamos falando. O termo vem da tradução da expressão em inglês predictive policing, e se refere a ações policiais preventivas com base na capacidade de prever possíveis crimes, locais de ocorrência e, algumas vezes, até seus autores. Em outras palavras: previsão do futuro. E ela já está acontecendo em países como Estados Unidos, Inglaterra, e até mesmo no Brasil.

Se você acha que a viabilidade de prever essas ações tem muito mais a ver com as ferramentas de Big Data do que com uma bola cristal, você está completamente certo! No post de hoje nós vamos explicar como o policiamento preditivo funciona, seus impactos na segurança pública e o porquê de uma técnica aparentemente perfeita levantar tantas polêmicas.

Prevendo o futuro e prevenindo crimes

Pode parecer uma afirmação ousada, mas é exatamente assim que o policiamento preditivo funciona. Através de um algoritmo que realiza a análise de dados provenientes das mais diversas fontes de informações e estatísticas, os órgãos de segurança pública conseguem projetar a probabilidade de uma ação criminosa em determinado local, e assim direcionar suas forças para a prevenção do crime.

A aplicabilidade do Big Data nesse caso se dá através de análises de infinitos dados públicos, que vai desde a coleta, passando pelo estudo e até a associação de dados entre si, para enfim serem traduzidos em informações organizadas e estruturadas. A análise de dados com caráter preditivo se baseia no estudo minucioso de dados históricos para apontar possibilidades e tendências.

O primeiro case de sucesso do policiamento preditivo aconteceu em 2011, nos Estados Unidos, quando o pesquisador George Mohler desenvolveu, em parceria com um sociólogo e um criminalista, um algoritmo que antecipava possíveis locais e horários de crimes, cruzando informações de boletins de ocorrências, fichas criminais e as diversas maneiras de execução dos crimes.

Ao ser utilizado pelo Departamento Policial de Santa Cruz, na Califórnia, a ferramenta apontava precisamente onde e quando um determinado tipo de crime poderia ocorrer. Em alguns casos, policiais do departamento foram ao local indicado e chegaram a surpreender bandidos cometendo as ações. A eficácia do algoritmo foi comprovada, resultando em uma diminuição de aproximadamente 30% dos crimes contra o patrimônio.

As polêmicas do policiamento preditivo

O sucesso da empreitada foi tanto que logo o algoritmo passou a ser empregado em outras cidades, principalmente em áreas consideradas de risco em metrópoles americanas. Numa busca cada vez maior por não somente prever os crimes, como também por antecipá-los e evitar que aconteçam, a polícia de Chicago desenvolver uma lista de possíveis agentes de ações criminosas e, em alguns casos, vai pessoalmente avisar que eles estão sendo acompanhados de perto, e que caso cometam algum crime ou infração, serão punidos.

A ideia é muito nobre, porém a verdade é que, legalmente, um criminoso não pode ser considerado como tal até de que fato tenha cometido algum ato ilícito. Então, seria justo imputar esse constrangimento a alguém antecipadamente? E com que garantias? Afinal de contas, as informações elaboradas a partir desse algoritmo são muito precisas, entretanto não deixam de serem probabilidades. Além de estigmatizar pessoas e regiões mais pobres, ações como essas desconsideram quase que absolutamente uma faculdade inerente à condição humana, que é o livre-arbítrio.

Além disso, também nos Estados Unidos, algoritmos estão sendo utilizados para avaliar a concessão ou não da liberdade condicional a alguns presos. Seria esse caso a substituição do papel de um juiz? E mais uma vez, seria justo que alguém fosse julgado e condenado por uma possibilidade que é tomada como verdade absoluta?

As tecnologias relacionadas ao Big Data abrem uma infinidade de possibilidades para melhorar a vida das pessoas, tanto individual quanto coletivamente. Sem dúvidas o uso de algoritmos na previsão de crimes é um avanço que pode melhorar, e muito, a segurança pública e a qualidade de vida da população. Os dilemas éticos são inerentes a qualquer aplicação de novas tecnologias, todavia é essencial ressaltar que o problema não está na tecnologia em si. É preciso priorizar o debate para que ferramentas como essas sejam aliados cada vez mais justos e eficazes nas suas propostas.

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