A conjunção de grandes volumes de informação possibilita análises que geram infinitas aplicações. Um dos primeiros casos de estudos de Big Data abrangeu o dataset de livros digitalizados do Google, permitindo a pesquisa sobre a evolução de conceitos culturais na literatura, ao longo do tempo e ao redor do mundo. A ferramenta possibilita, por exemplo, encontrar palavras em 5,2 milhões de livros, entre os anos de 1500 e 2009, em inglês, espanhol, chinês, francês, alemão, hebreu, russo ou italiano. Hoje, novos conjuntos de dados, agora com viés social, aprofundam os conhecimentos sobre importantes questões da civilização.

Uma dessas iniciativas, da Universidade de Oxford, na Inglaterra, tem como foco as principais teorias religiosas. Divulgado pela revista Nature, o estudo analisa centenas de culturas e revela que a ideia de divindade moral aparece depois que os homens deixaram as tribos, fenômeno que aumentou a complexidade social. Com o auxílio de Big Data, concluiu-se que a crença em grandes deuses – no sentido de “divindades moralizantes que punem transgressões éticas” – é uma consequência, não uma causa, do desenvolvimento de sociedades complexas.

Os pesquisadores usaram o massivo banco dados de história mundial, conhecido como Seshat (nome de uma deusa da mitologia egípcia associada à escrita, à astronomia, à arquitetura e à matemática). Pelas estatísticas, observaram que a crença em punição sobrenatural tende a aparecer apenas quando as sociedades fazem a transição de simples para complexas – mais ou menos quando a sua população total ultrapassa um milhão de indivíduos.

Essa afirmação teve como base um arquivo de mais de 300 mil registros com informações sobre “complexidade social e religião”, do Seshat: Global History Databank. Foram comparadas 414 sociedades, provenientes de 30 regiões, existentes desde a antiguidade até a Revolução Industrial. No total, foram analisados 47.613 registros.

“Por séculos, tem sido debatido por que os humanos, ao contrário de outros animais, cooperam em grandes grupos de indivíduos não geneticamente relacionados”, disse, em um comunicado, Peter Turchin, pesquisador da Universidade de Connecticut e coautor do estudo. Os cientistas processaram centenas de variáveis relacionadas a complexidade social, religião, guerra, agricultura e outras características da cultura e das sociedades humanas que variam ao longo do tempo.

Por sua vez, a etnografia tradicional argumenta que os grandes deuses moralizadores são necessários para permitir o surgimento de grandes sociedades porque, se as regras não fossem respeitadas, e não houvesse punição, a sociedade entraria em colapso.

Se a função original dos deuses moralizantes na história mundial foi a de manter coalizões frágeis e etnicamente diversas, o que poderia significar para as sociedades atuais o declínio na crença em tais deidades? Mesmo que os pesquisadores não encontrem respostas fáceis para todas as questões, a ciência de dados pode providenciar um meio mais confiável de estimar as probabilidades dos nossos diferentes futuros.

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