O que começou como um ano conturbado, mas relativamente normal, terminou como um dos anos mais atípicos na história recente da humanidade. A pandemia alterou, de forma radical, imediata e duradoura, o comportamento das pessoas e o funcionamento das empresas. Uma das principais tendências potencializadas por essas alterações foi a da chamada “transformação digital”, ou, de uma forma mais simples, da digitalização de processos e relacionamentos, seja no campo pessoal ou no profissional.

Ao invés de ir para o escritório, fazemos home-office. Ao invés de reuniões, temos ligações de vídeo por Zoom, Teams, Meet, e dezenas de outras ferramentas e plataformas. Ao invés de ir ao mercado ou à um restaurante, fazemos um pedido através de um aplicativo para receber as compras na porta de casa. As transações remotas cresceram de maneira exponencial, forçando todo tipo de empresa a se adaptar para continuar operando no mercado. Novas plataformas, focadas em atender esse crescente mercado de transações remotas e digitais, surgiram, e muitas ferramentas já existentes foram adaptadas para novos propósitos.

A digitalização levou à um crescimento sem precedentes para empresas com soluções focadas em apoiar esse tipo de processo, em especial as empresas de dados. Trocamos papéis assinados, formulários e documentos físicos por processos de cadastro não-presencial totalmente digitais, aonde, com alguns poucos cliques e campos preenchidos, estamos habilitados para utilizar um serviço ou produto. Para que isso funcione da maneira correta as empresas precisam de dados que permitam à elas validar a identidade do cliente e atender à requisitos legais sem incorrer em riscos.

Dessa forma, 2020 foi um excelente ano para o mercado de dados como um todo, das empresas que fornecem dados aos provedores de tecnologia de análise e tomada de decisão em cima dos dados. Olhando para frente, 2021 promete ser um ano ainda melhor para esse mercado

 

A pandemia continua

Para quem acredita que, com a virada do ano, o COVID-19 virou algo do passado, temos uma má notícia: a pandemia não acabou, e nem vai acabar tão cedo. Apesar dos recentes desenvolvimentos no campo das vacinas, as expectativas mais realistas é de que serão necessários cerca de 18 meses (nos países desenvolvidos, que iniciaram rapidamente seus programas de vacinação) até que uma fatia grande o suficiente da população esteja vacinada para evitar que o vírus se espalhe.

Por consequência, os fatores sociais – quarentenas, afastamento social, preferência por compras à distância – que surgiram com a quarentena e impulsionaram o mercado não só vão continuar, como devem se intensificar. As transições e mudanças que ocorreram nas empresas em 2020 foram feitas de maneira urgente, com o objetivo de adaptar rapidamente os negócios para a nova realidade. As empresas que sobreviveram agora estão se preparando com mais calma, e revendo os processo de forma mais estruturada, o que deve levar à um grau ainda maior de digitalização de processos.

Junto com isso, o mercado está percebendo as grandes vantagens de custo e eficiência que os processos digitais trazem sobre o modelo de operação tradicional. É mais um fator, que se soma aos descritos acima, para reforçar a tendência de digitalização, e o consequente crescimento das empresas com soluções que apoiam essa tendência.

 

A privacidade e a LGPD

A privacidade continua sendo um tema central nas discussões relacionadas não só com o mercado de dados, mas com tecnologia em geral. Quanto mais ubíqua se torna a tecnologia, quanto mais cobrimos o nosso mundo (e nós mesmos) com sensores, câmeras e microfones, mais as pessoas se preocupam com o que está sendo feito com toda essa informação sendo coletada. A consciência da população sobre a importância de se controlar de forma mais efetiva esses dados só aumenta, e 2021 deve ser seguir a tendência crescente de questionamentos e discussões sobre privacidade, com novas regras, regulamentações e leis sendo criadas ao redor do mundo.

No Brasil, temos uma situação peculiar. A LGPD, que está “parcialmente” em vigor desde o meio de 2020, passará a valer plenamente a partir da metade de 2021. Isso significa que as empresas passam a estar sujeitas as multas e sanções previstas na lei de forma plena. Ao mesmo tempo, o órgão regulatório responsável por fiscalizar e cuidar desse assunto no país, a Agência Nacional de Proteção de Dados, ainda não se encontra operacional, e o Ministério Público tem tomado a frente do assunto, movendo processos e abrindo inquéritos contra empresas. A falta de clareza e definição cria um ambiente de incerteza e insegurança jurídica que promete gerar muita discussão ao longo do ano.

 

O questionamento dos monopólios de tecnologia

Ao mesmo tempo que cresce, o mercado de dados está cada vez mais em evidência. Governos, entidades não-governamentais e órgãos regulatórios dos mais diversos países têm olhado de forma crítica para o poder que a concentração dos dados dá para empresas privadas, especialmente para as gigantes do setor de tecnologia, como Microsoft, Google, Facebook e Amazon. Cada vez mais, estamos vendo surgir questionamentos sobre à quantidade de informações que essas empresas possuem sobre os indivíduos, e o que elas fazem com essas informações.

Esses questionamentos estão indo além da retórica, e se transformando em pedidos (ou, em alguns casos, processos judiciais) para a quebra dessas empresas em partes menores, ou para a imposição de restrições legais e regulatórias sobre a forma como as mesmas atuam no mercado. E eles só tendem a aumentar. A digitalização leva ao crescimento da importância desse mercado, o que faz com que as empresas que atuam nele, direta ou indiretamente, se tornem mais fortes e acumulem mais dados, o que por sua vez chama mais atenção dos reguladores.

Independente de concordarmos ou não com as decisões dos reguladores, o fato é que elas afetam diretamente o mercado não só nos EUA ou na Europa, mas ao redor do mundo. Da mesma forma que a adequação dessas empresas à GDPR impactou suas atividades de maneira global, qualquer decisão de regulamentação mais severa, independente de onde ocorra, pode modificar a forma como elas atuam em todos os países. Isso pode trazer tanto ameaças quanto oportunidades para empresas locais.

Um outro ponto importante é que movimentos regulatórios fora do Brasil podem motivar a criação de novas regras e legislações aqui no país. Da mesma forma que a GDPR, quando lançada na Europa, virou um gatilho para a criação da LGPD aqui no Brasil, outros movimentos, como o de quebrar monopólios ou regular de forma mais intensa determinados mercados, podem incentivar a criação de leis e regras locais buscando os mesmos objetivos, e potencialmente gerando uma camada adicional de insegurança jurídica.

 

Iniciativas de Dados Abertos e a importância dos Dados Alternativos

Uma das principais ferramentas regulatórias para o combate aos monopólios das empresas gerados pela concentração dos dados é a criação de iniciativas e programas de dados abertos. Isso vai desde a abertura dos dados públicos até movimentos como o Open Banking, que visa estabelecer um ambiente para o compartilhamento de informações financeiras de clientes bancários de forma transparente e direta, fomentando a concorrência entre as instituições.

A abertura e interoperabilidade de dados nivela o jogo para o mercado com relação as informações que estão disponíveis através dessas iniciativas. Para esses dados, a questão mais importante deixa de ser como acessá-los, e passa a ser como trabalhar com eles de maneira mais inteligente, e como extrair mais valor das informações que estão disponíveis para todos. Isso cria uma oportunidade ímpar para as empresas que se posicionam como apoiadoras desse processo de extração de valor dos dados.

Ao mesmo tempo, informações alternativas, que não fazem parte do catálogo de dados abertos dentro dessas iniciativas, se tornam cada vez mais relevantes, pois passam a ser uma fonte importante de diferencial competitivo para as empresas. Qualquer informação externa que consiga diferenciar o comportamento dos indivíduos ou negócios de maneira complementar aos dados que já são compartilhados por todos vai ser amplamente demandada.

 

Conclusão

Se 2020 foi um ano no qual o crescimento veio de surpresa, motivado por fatores que ninguém esperava, 2021 promete ser um ano de ainda mais crescimento, mas de forma mais estruturada. A situação geral da sociedade continua a mesma, mas dessa vez ninguém está sendo pego despreparado. Ao contrário, as empresas agora vêm em um esforço consciente para se preparar ainda mais para a nova realidade. Ao mesmo tempo, muitas das iniciativas e projetos que foram interrompidos no ano passado devido às incertezas econômicas e sociais agora devem ser retomados. Com isso, o crescimento que não aconteceu tem o potencial de se materializar. Por todos esses motivos, 2021 promete ser um ano excelente para as empresas que atuam com informações.

 

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