Anualmente lançado pelo Banco Mundial, o Relatório de Desenvolvimento Mundial 2021: Dados para uma vida melhor levantou duas questões bem interessantes e que têm ganhado bastante destaque em nossas publicações: como os dados podem melhor promover os objetivos de desenvolvimento e que tipos de acordos de governança de dados são necessários para apoiar a geração e o uso de dados de maneira segura, ética e protegida, ao mesmo tempo em que agregam valor de forma equitativa.

De acordo com o documento, os dados podem trazer uma vida melhor para as pessoas por vários canais. Governos podem usar dados para aprimorar programas e políticas públicas, melhorar o direcionamento de recursos escassos a pessoas e áreas marginalizadas, e reduzir custos e perdas. O setor privado, por sua vez, pode utilizar dados para alimentar modelos de negócios baseados em plataformas que estimulam a atividade econômica e o comércio internacional de serviços. E os indivíduos, uma vez empoderados por dados disponíveis de forma pública e aberta, podem tomar decisões melhores e exigir que os governos e o setor privado se responsabilizem por suas ações.

Infelizmente, as mesmas desigualdades que encontramos no acesso a outros direitos básicos – saneamento, moradia, alimentação – são refletidas diretamente nos dados. Tanto no acesso aos dados, e na forma como as pessoas podem ser empoderadas por eles, quanto na própria disponibilidade desses dados, seja para o governo, para o setor privado ou para os indivíduos. Nações mais pobres possuem uma menor infraestrutura de dados, com menos informações disponíveis, e, mesmo nas nações mais desenvolvidas, os sistemas tradicionais de informação não cobrem ou até ignoram as faixas mais pobres da sociedade.

Ações em um nível global, focadas em desenvolver e evoluir a infraestrutura de dados das nações, são fundamentais para endereçar esse problema. No entanto, são processos demorados, que não resolvem as questões mais urgentes de desigualdade social reforçadas pelos dados. Para tentar mitigar essas questões, os dados alternativos podem ser um importante aliado das empresas, dos governos e dos cidadãos.

 

A tirania da assimetria de informação

Antes de falar sobre como dados alternativos podem resolver esse problema, é importante entender de qual problema exatamente estamos falando. Imagine que você vai pedir dinheiro emprestado em uma instituição financeira, por qualquer motivo. Pode ser um crédito imobiliário, um crédito veicular ou até mesmo um simples cartão de crédito. Qualquer instituição financeira vai buscar informações suas para tomar uma decisão sobre aprovar ou não o crédito para você. Informações que indiquem não só que você é quem você diz ser, mas também que você tem a intenção de pagar de volta a sua dívida e a capacidade de pagar o valor que está sendo emprestado.

Para a maioria de nós – eu, todos que trabalham na BigDataCorp, todos os leitores desse texto – esse processo é muito normal. Uma consulta do nosso CPF em uma empresa como a própria BigDataCorp, ou qualquer outro fornecedor de dados, vai trazer informações suficientes para que essas decisões sejam tomadas de forma rápida e simples. Isso acontece porque a quantidade de informações disponíveis sobre a fatia da população que nós representamos é enorme. Estamos plenamente inseridos nos mais diferentes setores da economia e a nossa “pegada informacional” é gigantesca, permitindo que decisões automáticas tomadas com base em nossos dados simplesmente aconteçam.

Imagine agora que quem está querendo pedir o crédito é um trabalhador informal, que nunca teve uma carteira assinada, que mora em um apartamento compartilhado com mais 8 outros familiares, sem nenhuma conta em seu nome, sem nenhum registro formal de casamento, sem nenhuma ação judicial em seu nome. Uma pessoa sem uma pegada de informação. Analisada através dos dados convencionais, essa pessoa vai ter o seu pedido negado, ou então vai receber um valor tão irrisório que vai acabar desistindo.

Fica pior: a reprovação ou desistência reforçam a não participação do indivíduo nos sistemas convencionais de informação – ele fica desbancarizado ou não participante na economia – fazendo com que continue não existindo dados sobre ele nos sistemas tradicionais, por sua vez fazendo com que ele continue não sendo aprovado para o crédito. E não é só na aprovação do crédito que ele fica limitado, é no acesso a todo tipo de produtos e serviços, digitais ou físicos. Mesmo vivendo na economia dos dados, essas pessoas continuam sendo segregadas de forma brutal.

 

Como dados alternativos podem ajudar

Já falamos várias outras vezes nesse blog sobre os dados alternativos e sobre a sua importância para os negócios. Para quem não teve a oportunidade de ler os textos anteriores, dados alternativos são informações não-convencionais que podem ser utilizadas para entender um comportamento ou resolver um problema. Imagine, por exemplo, usar a velocidade média de acesso à internet como um indicador de evolução da pandemia de COVID-19. Esses dados, além de terem sua origem em fontes diferentes das tradicionais, geralmente possuem também uma frequência de atualização muito maior.

E é justamente no quesito de redução de desigualdade que os dados alternativos podem brilhar. Ao fornecer uma nova maneira de analisarmos as pessoas (e também as empresas), ortogonal e independente dos mecanismos tradicionais, eles trazem uma oportunidade única de inclusão da população que normalmente seria discriminada e excluída. A capacidade de olhar para essas outras informações nos permite suplantar os dados tradicionais nos processos de tomada de decisão, sejam eles de crédito ou quaisquer outros e, com isso, remover as distorções e a desigualdade implícita que vem desses dados tradicionais.

A utilização de dados alternativos, portanto, não é opcional. Para qualquer empresa que se proponha a expandir o acesso à determinados tipos de produtos e serviços – bancários, cíveis ou de qualquer outra natureza – usar outros tipos de informações na tomada de decisão sobre quem pode ou não acessar os serviços, e sobre qual o nível de acesso que cada um pode ter, é fundamental para quebrarmos o ciclo vicioso ocasionado pela falta de informação tradicional. A revolução já está acontecendo, e só vai acelerar. Cabe a cada empresa e a cada indivíduo decidirem se vão se juntar a ela ou se vão ficar para trás.

BigDataCorp