De tempos em tempos, explode na mídia algum escândalo de vazamento de dados pessoais por ação de hackers, por má conduta de plataformas sociais ou até por problemas técnicos das próprias empresas. Nesses casos, em geral, as pessoas atentam para o risco de violação de dados mais óbvios, como CPF, endereço, telefone, conta bancária, senhas. No entanto, para além dessas importantes informações, existe um conjunto enorme de dados “invisíveis”, gerados quando fazemos uma compra ou realizamos um cadastro on-line, entre outras situações.

Um exemplo bem representativo do que significa esse acervo oculto das informações digitais aconteceu alguns anos atrás, com a loja norte-americana Target. A empresa conseguia identificar mulheres que se declaravam grávidas e dirigia campanhas de venda a essas possíveis “clientes”. O pai de uma das jovens que recebeu os conteúdos reagiu, alegando que a loja estaria incentivando sua filha a engravidar. Pouco tempo depois, ele ficou sabendo que a filha estava mesmo grávida.

Muitas empresas garimpam e comercializam esses dados indiretos, que não são tão evidentes, mas são intrínsecos às operações de navegação e transação na internet. Em um artigo para a revista Fast Company, o jornalista Burt Helm escreveu: “Essas transações deram origem a um ecossistema complexo de venda de dados. No centro, estão as redes de processamento de cartão de crédito, incluindo Visa, American Express e Mastercard, as quais captaram US$ 4,1 bilhões em 2019 – um quarto de sua receita anual – ao alavancar seu armazém de dados de transações”. Michael Moreau, co-fundador da Habu, startup dos Estados Unidos que ajuda anunciantes a personalizar suas ações de marketing, declarou que “os dados de transações são o Santo Graal para os profissionais de marketing hoje”.

O mercado já desenvolveu soluções voltadas a blindar as transações virtuais com cartões de crédito. Em meados de 2019, a Apple criou um cartão integrado ao IPhone que não tem número, evitando o rastreamento das compras. O Apple card traz apenas o nome do usuário; as demais informações ficam no chip. Com a mesma proposta de mascarar hábitos de compra on-line, um time de jovens profissionais criou a Privacy.com. A empresa oferece cartões virtuais que não identificam o comprador, além de um aplicativo que preenche formulários de pagamento, economizando tempo e ocultando os dados do cartão. Outras iniciativas nesse sentido envolvem tecnologias como gerenciadores de senhas e extensões de navegador que ocultam a navegação na web.

Porém, mesmo esses aplicativos podem dar margem a questionamentos, pois, como aponta Helm em seu artigo, “têm laços com o ecossistema de dados”, por suas parcerias com companhias de serviços financeiros, que atendem instituições bancárias. O quadro aponta, sem dúvida, para mais uma fronteira da privacidade de dados que requer regulamentação específica e urgente.

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