“Se o serviço é de graça, o produto é você”; “A privacidade não existe, já morreu há muito tempo”; Insira aqui a sua frase de proteção de dados favorita.

A imprensa, e alguns setores da sociedade têm utilizado essas frases nas discussões sobre a economia de dados, construindo uma narrativa que vem aos poucos jogando a população contra as empresas que têm nos dados o valor central dos seus negócios. Esse processo de transformação dos dados – e, por extensão, das empresas que operam com dados – em vilões do universo digital tenta se justificar com os argumentos de promoção do direito à privacidade dos indivíduos, dizendo estar defendendo os interesses dos milhões de consumidores que supostamente sofrem nas mãos de empresas que utilizam suas informações de maneira indevida.

Existem de fato muitos abusos dos nossos dados. De informações que são coletadas sem o nosso conhecimento e sem o nosso consentimento, ao uso de segmentação de perfis em mídias sociais para manipular a opinião pública, até a construção de deep fakes de voz e vídeo para cometer fraudes contra o mercado, é inegável que a quantidade de aplicações indevidas de informação cresceu exponencialmente nos últimos anos. E esses incidentes vem cada vez mais sendo noticiados em veículos amplos, aumentando a conscientização da sociedade sobre o problema. Não é à toa que estamos vendo o desenvolvimento da LGPD e de dezenas de outras legislações de proteção de dados relevantes ao redor do mundo.

Quando olhamos para essa história, é muito fácil ver os dados como os grandes vilões. “Se ninguém tivesse acesso aos nossos dados, nada disso aconteceria”. Essa visão, no entanto, não poderia estar mais longe da realidade. Os dados sempre estiveram disponíveis, mas sua comercialização acontecia em um mercado “cinza”, sobre o qual até já falamos antes. Mais do que isso: a transformação dos dados de usuários em uma fonte de receita foi o que possibilitou a grande maioria das inovações e tecnologias que hoje fazem parte do nosso cotidiano.

Hoje, as pessoas têm no seu bolso telefones com mais poder de processamento que os computadores de 20 anos atrás, e com acesso a ferramentas de pesquisa de conteúdo que trazem qualquer tipo de informação em um instante. Digitamos (ou falamos) uma pergunta, e a resposta aparece, quase que num passe de mágica. Tanto a maior máquina de buscas da internet (o Google) e o sistema operacional que roda na maioria dos telefones do mundo (o Android) são frutos do Google, que só existe hoje devido à possibilidade de monetizar informações dos usuários.

O Facebook, o Twitter, o LinkedIn, o Spotify, o YouTube, o TikTok. A possibilidade de qualquer pessoa ter um endereço de e-mail sem custo. As vídeo-chamadas que fazemos pela internet com nossos amigos, parentes e conhecidos. A infinidade de serviços do governo que são oferecidos hoje de forma simples através da internet. Tudo isso só é possível por causa da economia dos dados, do valor intrínseco que os dados possuem, e da capacidade de empresas de transformar esse valor em receitas, que pagam os custos de tudo isso.

E não foram só os produtos que foram entregues diretamente para os consumidores finais que os dados viabilizam. Com mais dados, é possível avaliar melhor o risco – de crédito, de saúde, de um acidente de carro – das pessoas, o que amplia a fatia da população que pode ter acesso ao sistema financeiro, à seguros, à planos de saúde, e a dezenas de outras áreas da economia. Todas as histórias de transformação digital são, na verdade, histórias da maior disponibilidade e melhor utilização dos dados, otimizando a tomada de decisões e aumentando o alcance das empresas.

O mesmo vale quando falamos de “xxx-techs”. Fintechs, insurtechs, lawtechs, healthtechs, edtechs, ou qualquer outro prefixo que você queira colocar na frente, o que essas empresas estão fazendo é utilizar mais dados, de forma melhor, para transformar os mercados nos quais atuam. Os dados são um superpoder dessa nova leva de empresas, o herói secreto por trás de todas as transformações que estamos observando na sociedade.

É justamente por trazer todas essas vantagens e benefícios para as pessoas que os dados não devem ser transformados em vilões. Dizer que dados são ruins, ou dizer que empresas que usam e comercializam os dados são ruins, e que todas as informações deveriam ser absolutamente privadas, gera uma tensão social contra as aplicações positivas, que faz muito mais para prejudicar a sociedade do que qualquer uso indevido de informações. Temos que fiscalizar a forma como dados, especialmente dados pessoais, são captados, tratados, guardados e depois utilizados, mas nunca confundir a proteção dos dados com a proibição do seu uso.

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