Como a desigualdade social pode influenciar o tempo de vida de um dado? Que relação haveria entre este, que seria um problema socioeconômico, e a questão tecnológica da durabilidade de uma informação? Por mais que esses conceitos possam parecer totalmente desconexos, os dois estão profundamente ligados em uma relação inversamente proporcional: quanto maior a desigualdade social, menor o tempo de vida de um dado.

Já abordamos o conceito da validade dos dados – do que chamamos de data shelf life – em artigos e em outros posts neste blog. O ponto central é que toda informação tem uma data de expiração, e a utilização de informações que estão vencidas, ou seja, cuja data de expiração já passou, representa riscos financeiros, reputacionais e legais para as empresas. Nos artigos anteriores, falamos sobre como esse prazo de validade deve ser medido, e qual o seu impacto para os negócios. Hoje, vamos explorar como a desigualdade social também impacta esse tema.

 

Perenidade e desnível social

Podemos usar uma analogia com bens de consumo convencionais para entender melhor esse relacionamento. Imagine, por exemplo, que você vai comprar um computador, ou um smartphone. Os produtos mais caros geralmente possuem características que vão fazer com que durem mais, que não tenham que ser trocados com tanta frequência; e os mais baratos provavelmente vão durar menos tempo. Independentemente das razões exatas por que isso acontece, é algo que compreendemos intuitivamente. Com o tempo de vida dos dados, a relação é similar. Ao invés de produtos com preço maior ou menor, no entanto, estamos falando de pessoas com maior ou menor poder aquisitivo.

Vamos tomar como exemplo o dado de “telefone de contato”. Pessoas com maior poder aquisitivo têm, em sua grande maioria, um plano de celular pós-pago. Quando elas trocam de aparelho ou de operadora (o que acontece com uma frequência baixa), fazem a portabilidade do número, mantendo o mesmo número por anos ou até mesmo décadas. Podemos tranquilamente tratar o número de telefone como um dado de identificação dessas pessoas. As pessoas com menor poder aquisitivo, por outro lado, têm maior probabilidade de ter um plano pré-pago, mais barato. Não só isso, mas como os processos de recarga geralmente são feitos com cartões de débito ou crédito, acaba sendo mais simples para essas pessoas comprar um chip novo e trocar de número. A ideia de fazer a portabilidade do número de telefone nem passa pela cabeça delas. Assim, o tempo de vida dessa informação para uma pessoa de classe baixa é bem menor do que para pessoas de classe média ou alta.

E isso não é uma questão pequena. Dados da Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel) mostram que, em maio de 2021, o número de telefones celulares no Brasil chegou a 241 milhões de aparelhos. Desses, 116,4 milhões (48,3%) eram de telefones pré-pagos. Em outras palavras, quase metade dos números de telefone do país tem um prazo de validade curto e representam um grande risco para as empresas.

O telefone não é o único dado afetado. O endereço sofre com a mesma variação. Enquanto uma pessoa com maior poder aquisitivo pode comprar um imóvel e morar no mesmo endereço por décadas, para quem tem menos recursos, a dificuldade em adquirir uma casa própria e a solução de morar de aluguel (ou com familiares) faz com que o endereço seja mudado com alta frequência, principalmente diante de um cenário econômico incerto, com inflação alta e desemprego subindo. E, novamente, não é uma questão pequena. De acordo com o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), os imóveis alugados representam 18,3% das moradias, o equivalente a 13,3 milhões, e os cedidos, 8,9%, ou 6,4 milhões.

Essa diferença de prazo de validade dos dados de acordo com a classe social dos indivíduos vai se repetir, de diferentes formas e por diferentes razões, em praticamente todos os atributos que analisarmos. Seja o tempo de permanência em um emprego, a renda familiar, o nível de escolaridade, a presença digital ou qualquer outro, vamos sempre observar que o tempo que fica válida a informação de uma pessoa está inversamente relacionado ao seu nível social.

 

Uma desvantagem na nova economia

Se estamos transitando para a economia dos dados, podemos argumentar que os dados são – ou serão em breve – os principais ativos das empresas dessa nova economia. Enxergando os dados como ativos empresariais, fica fácil ver que o prazo de validade das informações representa, na verdade, o tempo de depreciação desses ativos, ou seja, o tempo no qual eles perdem o valor. Assim, quanto menor for o tempo de expiração dos dados, mais forte e rápida é a depreciação desses ativos para as empresas.

De uma perspectiva mais ampla, podemos entender também que países com maior desigualdade social largam com uma desvantagem estrutural no âmbito dessa nova economia. Maior desigualdade leva a dados que duram menos, o que aumenta a complexidade da infraestrutura informacional necessária para que as empresas tomem boas decisões (de qualquer tipo), e aumenta os custos de gestão e manutenção das informações.

Assumindo que as empresas são racionais, imagina-se que nenhuma delas queira ativos que se depreciem muito rápido, e muito menos maiores custos e complexidade operacional. Dessa forma, atacar a desigualdade social não é simplesmente uma questão ética ou moral para as empresas, mas sim uma necessidade básica para garantir a sua competitividade e sobrevivência na nova economia. Existe um retorno econômico claro e mensurável que pode ser obtido com a redução da desigualdade. Quanto mais cedo os líderes de negócios acordarem para isso, melhor.

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