Um problema de todos

Existem hoje cerca de 16,89 milhões de sites ativos no país, de páginas corporativas e educacionais até blogs, sites de notícias e e-commerces. O número é 53,68% maior do que o registrado em 2016. Para o próximo ano, certamente teremos um resultado ainda maior, já que, com a pandemia, empresas que ainda não estavam na internet se viram obrigadas a dar esse passo na tentativa de se manterem vivas e competitivas.

E se antes da crise sanitária a preocupação era com o conforto e o bem-estar dos clientes que visitavam fisicamente as lojas, o grande desafio agora é proporcionar a melhor experiência possível ao mesmo cliente, só que em ambiente virtual. E assim estamos caminhando, com sites responsivos, formulários inteligentes e processos de busca e de compra finalizados com o menor número possível de cliques. Infelizmente, essas melhorias na experiência de navegação e compra não estão acontecendo para toda a população. As PPDs, uma grande parcela da população, ainda estão sendo deixadas de lado.

A terceira edição da pesquisa de Acessibilidade da Web Brasileira, sobre a experiência de uso de sites e aplicativos por pessoas portadoras de deficiência no país, identificou uma melhora discreta na acessibilidade dos sites brasileiros, embora o número ainda esteja longe de ser o ideal. A pesquisa foi conduzida pela BigDataCorp, em parceria com o Movimento Web para Todos.

De acordo com o estudo, apenas 0,89% dos sites tiveram sucesso em todos os testes de acessibilidade aplicados. Em 2020, esse percentual foi de 0,74%. Apesar da melhora, o volume continua inferior a 1% do total, um número incrivelmente baixo para um país em que 45 milhões de pessoas (quase 25% da população) possuem algum tipo de deficiência.

Outros números também apresentaram melhoras. A quantidade de sites que passaram em todos os testes, exceto os testes definidos pelo W3C (consórcio internacional que desenvolve padrões para a web), subiu de 15,64% em 2020 para 20,74% em 2021. Por serem mais rigorosos, os testes do W3C representam a maior fatia das falhas. Por outro lado, o percentual de sites que falhou em todos os testes de acessibilidade também subiu, de 0,01% em 2020 para 2,31% neste ano.

Os testes foram aplicados de forma automática, através de uma etapa de processamento adicional incorporada ao processo de captura de sites operado pela BigDataCorp. Para cada site visitado, os elementos das páginas são verificados para identificar imagens, formulários, links e outros itens que precisam ser adaptados para garantir a acessibilidade do conteúdo, e para garantir que tais elementos estão de acordo com os critérios estabelecidos. 

Observamos melhorias nas estatísticas de praticamente todos os testes. Nos testes de links, que verificam se um elemento de link está estruturado de uma forma que um leitor de tela consiga tratar o conteúdo e se o link abre em uma nova aba ou janela, 77,28% dos sites apresentaram alguma falha, contra 93,65% em 2020. No quesito de descrição de imagens, que é um dos mais simples de ser resolvido – basta incluir uma descrição de texto para cada imagem do site no HTML – 71,98% dos sites apresentaram problemas, contra 83,36% em 2020. O único teste que apresentou um aumento no percentual de falhas foi o teste de formulários, que busca garantir que os elementos de formulário da tela – campos editáveis, botões e caixas de seleção – sejam interpretados corretamente por leitores de tela. 70,84% dos sites apresentaram algum problema nesse teste, contra 55,19% do ano anterior. 

As melhoras também identificadas em todos os tipos de sites. Empresas, e-commerces, blogs, sites de notícias, e todos os outros melhoraram em termos de acessibilidade, mesmo que os números ainda estejam baixos. No e-commerce, por exemplo, tivemos 1,46% dos sites aprovados em todos os testes, contra 1,31% do ano anterior. A melhora mais expressiva ficou por conta dos sites do governo. 10,54% desses passaram em todos os testes, contra 3,29% em 2020.  

 

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Acessibilidade em aplicativos

A pesquisa também avaliou a acessibilidade nos 2.369 aplicativos mais baixados da Play Store, loja de apps do Google. Assim como no caso dos sites, percebemos ligeiras melhoras em todos os quesitos.

Em média, 11,54% dos elementos de interface dos aplicativos têm descrição, frente aos 10,34% identificados na última pesquisa. Com relação ao uso de texto descritivo, o recurso foi encontrado em 14,64% das imagens (2,59 p.p. acima do resultado obtido em 2020), em 8,92% dos botões (6,15% em 2020) e em 0,52% dos campos editáveis (0,31% em 2020).

A descrição dos elementos visuais de um aplicativo, na prática, melhora a experiência de acesso de uma pessoa com deficiência visual, pois permite que ela compreenda a imagem por meio de um texto alternativo. Da mesma forma, o uso de descrições em botões e em campos editáveis permite que a pessoa compreenda para que serve cada um dos botões e o que deve ser preenchido em cada campo disponível.

 

Metodologia utilizada na pesquisa

A BigDataCorp utilizou o processo de captura de dados da internet extraídos de visitas a mais de 30 milhões de sites brasileiros (ativos e inativos), dos quais são obtidas informações estruturadas e seus links. Foram desconsiderados os sites inativos, ou seja, os que estavam fora do ar ou que não responderam a visitas por quatro semanas seguidas. Também foram desprezados os que, por oito semanas consecutivas, não fizeram qualquer alteração em seu conteúdo. Assim, foram considerados neste estudo 16,89 milhões de sites. É importante destacar que foram aplicados apenas os testes válidos para cada tipo de site de acordo com o conteúdo nele publicado. A ferramenta coletou os sites e verificou em todas as páginas se existia, por exemplo, formulários e imagens, e se estão de acordo com os critérios selecionados para a verificação.

Para a pesquisa sobre aplicativos, a empresa realizou o download de 2.369 aplicativos da Play Store com mais de 10 milhões de downloads e extraiu o código fonte de cada um dos apps para investigação do conteúdo baixado. Para identificar quais aplicativos atingiram a marca de 10 milhões de downloads foi feito o processo de captura das informações públicas da Google Play Store, como número estimado de downloads do aplicativo, a quantidade de reviews, bem como informações detalhadas sobre o desenvolver, além de outros dados relevantes. A coleta verificou se determinados elementos de aplicativos nativos do Android possuem uma descrição, com base na documentação do Google sobre desenvolvimento para Android e nas Diretrizes de Acessibilidade Web do W3C para textos alternativos.

BigDataCorp