Pandemia muda cenário brasileiro

O antigo provérbio chinês que afirma que a crise é sempre um momento de oportunidade nunca esteve tão em alta como nos últimos anos. Da crise financeira de 2015 à atual pandemia de Covid-19, que já se estende por mais de 12 meses, estamos realmente vivendo períodos de grandes “oportunidades”, que foram abraçadas com muita competência pelo setor de e-commerce no Brasil.

Em 2021, alcançamos a marca de 1,6 milhão de lojas on-line. O número é 22,05% maior do que o de 2020, e soma-se ao crescimento de 40% que já havia acontecido de 2019 para 2020. Nos últimos cinco anos, o aumento foi de 191,6%.

Não é novidade que esse movimento aconteceu como uma tentativa desesperada por parte do comércio, principalmente de pequenos e médios empreendedores, de sobreviver à crise mantendo o volume de vendas. Recém-lançada no país, por meio de uma parceria entre a BigDataCorp e o PayPal Brasil, a 7ª edição da pesquisa Perfil do E-Commerce Brasileiro mostrou que, apesar dos números expressivos, ainda há espaço para o crescimento do segmento, uma vez que apenas 6,19% do varejo brasileiro tem um e-commerce.

O destaque ficou por conta das pequenas empresas. Negócios com faturamento de até R$ 250 mil por ano representam hoje 52,73% do total, percentual superior aos 48,06% de 2020. Observamos uma dinâmica semelhante quando olhamos para a quantidade de pessoas empregadas pelas lojas on-line: 55,79% não têm nenhum empregado fixo, sendo operadas apenas pelos próprios sócios.

Um total de 83,43% dos sites de e-commerce no Brasil são considerados pequenos também no volume de acessos que recebem, tendo menos de 10 mil visitas por mês. Apesar de alto, esse percentual caiu de forma significativa frente aos anos anteriores, enquanto o percentual de lojas que recebem entre 10 mil e 500 mil visitas (9,92%) e o percentual de lojas que recebem mais de 500 mil visitas (6,62%) aumentou. Essas alterações estão relacionadas com a crescente presença on-line dos consumidores, que aumentou exponencialmente o volume total de acessos e compras.

 

Evolução e profissionalização do mercado

A tendência de amadurecimento do mercado, que já havíamos apontado em edições anteriores da pesquisa, segue forte. Quando lançamos a primeira edição do estudo, em 2015, mais de 40% dos e-commerces ativos eram sites construídos pelo próprio lojista, sem a utilização de qualquer plataforma. Hoje, esse percentual é de menos de 20%. As plataformas são ferramentas fundamentais na operação de um e-commerce, simplificando a integração de ERPs, a gestão dos estoques e as centenas de outras tarefas necessárias para que uma loja on-line funcione de uma maneira profissional.

Esse amadurecimento também se demonstra na crescente preocupação com a experiência do usuário no site: 83,51% dos e-commerces utilizam tecnologia responsiva, que adapta o conteúdo exibido no site para diferentes formatos de tela, garantindo uma interação consistente, independentemente da forma de acesso. Em 2016, apenas 16% dos sites eram responsivos.

Também chama a atenção que 60,37% dos e-commerce já oferecem aos consumidores a opção de pagamento através de carteiras virtuais. Há sete anos, a realidade era inversa, com 60% dos e-commerce não oferecendo esse tipo de mecanismo de pagamento. Isso novamente está relacionado com o aumento do profissionalismo. O consumidor on-line hoje está muito mais exigente e espera ter opções, não só de produtos, mas também na forma de efetuar o seu pagamento, para que se sinta seguro.

Observamos uma evolução semelhante na utilização de certificados SSL (Secure Sockets Layer), uma camada de segurança que criptografa os dados transacionados entre consumidor e loja on-line. Hoje, 92,39% dos e-commerces adotam essa tecnologia, um recorde desde o início da pesquisa.  Em 2020, o número era de 88,43%. O movimento demonstra uma maior preocupação das empresas com a segurança dos clientes, além de um entendimento mais claro acerca do ranqueamento em sites de busca, uma vez que os sites que não têm SSL são despriorizados pelo Google.

 

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Estudo aponta desconcentração geográfica do e-commerce no Brasil

Historicamente, cerca 60% das lojas on-line do país ficavam concentradas em São Paulo. Não à toa, estamos falando do estado com a maior concentração de consumidores e o mais desenvolvido em termos de logística, o que tornava mais fácil o envio de produtos. O estudo apontou que a pandemia tem promovido uma maior descentralização ao despertar a consciência de que e-commerces, fabricantes e distribuidores não precisam estar fisicamente próximos.

Embora São Paulo continue sendo o estado que mais concentra esse tipo de empresa, hoje sua participação caiu para 50%. Mas então de onde vem todo esse crescimento apontado pela pesquisa? Destaque para Minas Gerais, que passou de 6,20% do volume total de lojas em 2020 para 7,24% em 2021, e para o Paraná, que foi de 5,84% para 7,01% no mesmo período.

 

Mudanças no papel das mídias sociais

Quase 70% (69,75%) das lojas on-line possuem perfil em pelo menos uma rede social, percentual semelhante ao observado em anos anteriores. O Facebook e o Twitter continuam sendo duas das principais mídias utilizadas pelos lojistas, estando presentes em 53,96% e 31,10% dos sites, respectivamente. Essas duas redes, no entanto, são utilizadas principalmente como canais de atendimento ao cliente, para a resposta de dúvidas e reclamações, e sua participação desde 2015  tem se mantido estável.

Outras mídias sociais que têm se apresentado como forma, não só de responder aos questionamentos, mas também como mecanismos de construção de um relacionamento mais próximo com os consumidores, vêm crescendo rapidamente. De 2016 para hoje, a penetração do YouTube nos e-commerces mais que dobrou, saltando de 20,8% para 45,82%. E a do Instagram praticamente triplicou, saindo de 9,32% para 27,84%. Esses dois canais permitem às marcas demonstrarem os seus produtos, além de um engajamento mais efetivo com os clientes, melhorando o relacionamento e aumentando as vendas, o que leva naturalmente a esse crescimento mais rápido.

 

Marketplaces e apps ganham espaço

Pela primeira vez na pesquisa, além das lojas de e-commerce, foram analisadas também as empresas que estão presentes em marketplaces on-line (como o Magazine Luiza ou Submarino) e em aplicativos de “everyday spending” (como o iFood ou Rappi). E o que constatamos é que essas categorias vêm crescendo a passos largos, com uma velocidade superior à do próprio e-commerce. Identificamos mais de 370 mil empresas únicas vendendo seus produtos por meio de marketplaces, e mais de 610 mil vendendo através dos aplicativos.

No caso dos aplicativos, a maior parte dessas empresas são, naturalmente, restaurantes, que tiveram que mudar rapidamente seu modelo de negócios do serviço presencial para o delivery devido à pandemia. Quase 70% dos estabelecimentos presentes nos apps são dessa categoria e mais da metade desses (52,16%) têm o estabelecimento físico para receber clientes, além de fazer a venda pelos aplicativos, para entrega.

Os marketplaces, por sua vez, vêm conquistando um espaço cada vez maior no mercado. O percentual de sites de e-commerce que também estão presentes em algum marketplace subiu de 5,73% para 10,46%, quase dobrando, e já representando mais de 150 mil empresas. Eles são espaços e canais de venda cada vez mais importantes para os lojistas e, de fato, muitos têm preferido abrir suas lojas diretamente nos marketplaces, sem se dar ao trabalho de construir um site de e-commerce, simplificando a sua entrada no digital.

 

Conclusão

A forte tendência de crescimento do mercado on-line, que já havia sido observada em 2020, se sustentou esse ano. As pressões externas – pandemia, evolução do comportamento do consumidor – continuam existindo, o que naturalmente faz com que as evoluções e mudanças que observamos acontecer de 2019 para 2020 persistam ainda em 2021. O setor do comércio eletrônico não só tem se mostrado resiliente frente à deterioração da economia, mas tem também sido uma importante alternativa para a continuidade de operação de muitas empresas.

O aumento de participação dos marketplaces e a crescente importância dos apps no hábito de consumo dos indivíduos são movimentos interessantes que observamos. Por um lado, tanto os marketplaces quanto os apps democratizam o acesso dos empreendedores ao mercado digital. Um dono de restaurante que quer fazer entregas e vender pela internet não precisa montar um site e uma operação de logística: pode simplesmente listar seus produtos no app e “tirar os pedidos”. Por outro lado, podem causar, no médio prazo, uma concentração de poder que prejudica os próprios vendedores e, em última instância, os consumidores.

Finalmente, apesar de todas as tendências e do rápido crescimento do mercado on-line nos últimos anos, o que vemos de fato é que ainda há muito espaço para crescimento. Mais de 90% das empresas do varejo não estão on-line e essa transformação só está começando.

BigDataCorp