Além de uma ferramenta robusta para avaliar cenários e prognosticar movimentos futuros, a ciência de dados também é um recurso bastante eficaz para reconstruir o passado. O Big Data nos permite resgatar histórias e conhecer detalhes que jamais seriam notados sem o apoio da tecnologia.

A pesquisadora norte-americana Mara Truslow tinha pleno conhecimento desse potencial quando teve a ideia, dois anos atrás, de usar a ciência de dados para contar a história de um grupo de combate da Força Aérea do Exército dos EUA durante a Segunda Guerra Mundial. Entre esses soldados, que serviram no 44º Grupo de Bombas, estava seu avô, Wallace Truslow, falecido há 20 anos.

Em um artigo publicado na plataforma Medium, Mara explica que o objetivo era contar uma história visual sobre o impacto coletivo e histórias singulares de 5 mil jovens militares chamados “meninos-bomba”. O resultado foi o Painel de Dados do Grupo de Bombas, feito com base em 1,5 milhão de pontos de dados e apresentando mais de 100 tipos de visualizações de dados, disponível no Google Data Studio. Mara acredita que “a análise gerou uma nova história da Segunda Guerra Mundial, trazendo detalhes singulares dos aviadores que foram pioneiros na guerra aérea”.

Os dados apontaram, por exemplo, que o grupo voou 29 meses seguidos, entre o final de 1942, até o final da guerra, em maio de 1945. Mais da metade (57%) foram missões realizadas em 1944. “A beleza de elaborar uma narrativa com grande volume de dados são as possibilidades exponenciais de olhar para o “panorama geral”, além de ampliar as histórias granulares, que são “agulhas no palheiro” – tudo com apenas alguns cliques do mouse”, diz a cientista.

Outra aplicação do Big Data na recomposição de fatos remotos se dá no campo da arqueologia. Utilizando Inteligência Artificial (IA), com técnicas de machine learning, pesquisadores da Universidade do Kentucky (EUA) trabalham para desvendar os segredos de dois rolos de pergaminho encontrados nas escavações de Herculano, cidade italiana atingida (junto com Pompeia) pela erupção do Vesúvio, em 79 d.C. Soterrada por lama, lavas e cinzas, a região foi redescoberta no início do século passado. Os cientistas usaram uma página do pergaminho como base para treinar um programa a identificar os padrões e, assim, permitir a “tradução” de todo o texto.

São muitos os projetos que utilizam a ciência de dados para identificar ocupações desaparecidas há milênios, tanto nas selvas mexicanas como nos vales da antiga Mesopotâmia e do Egito. Ou, ainda, para estudar as primeiras civilizações a ocupar a Índia, na Era do Bronze.

Mas nem só de ciência vivem os dados. A ficção também pode desfrutar dos benefícios desse conhecimento. Pesquisadores do Instituto de Tecnologia da Georgia (EUA) desenvolveram uma solução de IA, batizada de Scheherazade, capaz de criar histórias “ao gosto do leitor”. A narrativa é definida por meio de um jogo de escolhas. Em determinados momentos do roteiro, o leitor deve decidir o que vai acontecer, qual decisão o personagem vai tomar. De acordo com a opção, ele prossegue para uma página determinada. Assim, cada um pode ter a própria história. Garantia de longa vida para essa brincadeira, assim como aconteceu com a esperta princesa da lenda persa As mil e uma noites.

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