Já é comum aplicar Inteligência Artificial na área de segurança pública. O sistema mais conhecido é o CompStat (Compare Statistics), utilizado desde 1994 pela polícia de Nova York (Estados Unidos) para cruzar dados de segurança com informações geográficas – o que permite traçar um mapa detalhado da criminalidade e do policiamento na cidade. Com rápida disseminação entre as agências de polícia de todo mundo, o CompStat foi adotado, no Brasil, pelas polícias militares de Minas Gerais, de Santa Catarina, e pela prefeitura de São Paulo, entre outros.

Mais recentemente, a IA direcionou um olhar específico para os crimes em série. O jornalista Thomas Hargrove criou um algoritmo mais preciso do que o CompSat, voltado a detectar tendências em assassinatos não solucionados. O sistema utiliza informações públicas, porém, não acessadas anteriormente por ninguém, nem mesmo pela polícia. A ferramenta é a base do Murder Accountability Project (MAP), projeto sem fins lucrativos, com código aberto, cujo objetivo é tornar os dados do FBI sobre assassinatos mais ampla e facilmente disponíveis.

Integrado por ex-detetives, estudantes e um psiquiatra forense, o MAP já reuniu detalhes de 638.454 homicídios, de 1980 a 2014, incluindo 23.219 casos que não haviam sido relatados ao FBI. Atualmente, o grupo pesquisa, entre outras ocorrências, o número incomum de mortes por estrangulamento de mulheres acima de 40 anos, em Chicago.

A IA também vem apoiando os tratamentos de dados de provas judiciais. A norte-americana Veritone, companhia de tecnologia com especialidade em sistemas inteligentes, desenvolveu e já comercializa motores cognitivos para transcrição de áudio, reconhecimento facial, identificação de objetos, tradução, análise de áudio e vídeo, entre outros.

Experiência brasileira

O grave problema da segurança também estimula o desenvolvimento de produtos de IA por aqui. Uma iniciativa do Instituto de Ciências Matemáticas e de Computação (ICMC) da Universidade de São Paulo resultou na criação da CrimAnalyzer. Trata-se de uma plataforma que identifica padrões de criminalidade ao longo de determinado tempo, em determinada localização. Fruto de parceria com o Núcleo de Estudos da Violência (NEV) da USP e com o Centro de Ciências Matemáticas Aplicadas à Indústria (CeMEAI), ligado ao ICMC, a ferramenta já identificou 1.535 esquinas do centro da cidade de São Paulo que concentram quase a metade dos crimes na região.

Outro estudo feito com a CrimAnalyzer traçou a relação entre o crime e a infraestrutura nas áreas em que estão inseridas escolas de São Paulo. O mapeamento considera indicadores socioeconômicos, de infraestrutura urbana e histórico criminal. “Existe uma forte correlação entre pontos de ônibus e crimes no entorno dessas escolas”, observou o matemático Luis Gustavo Nonato, professor da USP e responsável pelo projeto do CeMEAI, à agência Fapesp.

No Brasil, que em 2018 registrou cerca de 58 mil homicídios, segundo o Atlas de Violência 2020, elaborado pelo Fórum de Segurança Brasileira, a IA tem muito a contribuir. Em especial se estiver a serviço de políticas públicas de redução dos assassinatos, que são a principal causa de morte entre os jovens – ou seja, o futuro do país.

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