Diante da avalanche diária de notícias, tweets, posts, vídeos, não é fácil fazer a distinção entre conteúdos falsos e verdadeiros. Mas é tarefa fundamental. Dados incorretos podem levar a tomadas de decisões incorretas. Um trágico exemplo recente aconteceu em relação à Covid-19. Inúmeros gurus de autoajuda e profissionais de medicina alternativa recomendaram poções, pílulas e práticas não comprovadas cientificamente como formas de “reforçar” o sistema imunológico. “Não estamos só lutando contra uma pandemia, lutamos contra uma infodemia”, definiu o diretor-geral da Organização Mundial da Saúde (OMS), Tedros Adhanom, em fevereiro deste ano.

Os especialistas são unânimes em dizer que, para combater as chamadas fake news, é necessário mais do que tecnologia: é necessário que a sociedade se conscientize desse problema e que qualquer conteúdo falso ou indevido seja combatido. Em um artigo na revista Nature, o professor canadense Timothy Caulfield, diretor de pesquisa do Health Law Institute, alertou: “Estudei a disseminação e o impacto da desinformação da saúde por décadas e nunca vi o assunto ser levado tão a sério como agora. Talvez seja por causa da escala da crise e da onipresença da desinformação absurda, incluindo conselhos de alguns políticos muito importantes. Para que essa resposta pró-ciência persista, todos os cientistas – e não apenas alguns de nós – devem defender informações de qualidade”.

Caulfield lembrou que órgãos reguladores adotaram medidas agressivas para responsabilizar profissionais de marketing de terapias não comprovadas. E conclamou a comunidade científica a não tolerar, nem legitimar a pseudociência em saúde, especialmente em universidades e instituições. Também convocou mais pesquisadores a se tornarem personagens ativos na luta pública contra a desinformação.

No mundo empresarial, as fake news comprometem os negócios, muitas vezes irremediavelmente – seja quando essas informações são tomadas como base para decisões estratégicas ou quando disseminadas em nome da companhia, com consequências para sua imagem, para suas receitas, para suas ações no mercado.

O uso da ciência de dados pode ajudar a evitar os processos de desinformação. E essa contribuição vai muito além de rastrear bots e identificar a autoria dos conteúdos, como demonstra o catedrático de Informática da Universidade Pompeu Fabra (Barcelona), Ricardo Baeza-Yates. Em suas pesquisas com machine learning, ele desenvolve programações para que o computador seja capaz de entender se um texto respeita a congruência semântica, se os fatos mencionados realmente existem e se há uma relação lógica no conjunto dos dados.

No Brasil, já está em fase de testes uma solução que checa links e textos. A ferramenta, chamada de Confere.ai, é baseada em inteligência artificial e está sendo desenvolvida desde o início deste ano no Sistema Jornal do Commercio de Comunicação, por meio de uma parceria com a Pontifícia Universidade Católica de Pernambuco e a startup Verific.AI. O projeto recebe financiamento da Google News Initiative para a América Latina. São pequenos passos como esse que vão pavimentar o longo caminho para estimular que as pessoas verifiquem as informações recebidas antes de compartilhá-las.

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