A importância de obter informações com ferramentas adequadas e interpretadas por pessoas habilitadas foi demonstrada, no combate ao novo coronavírus, quando dados alternativos revelaram a real dimensão da epidemia na Malásia. A partir de imagens de satélite e da velocidade da internet, o cientista da computação australiano Simon Angus detectou um comportamento incomum da rede naquele país: estava 5% mais lenta, nos dias 12 e 13 de março, com performance pior do que na Itália no período de isolamento social. Angus suspeitou, então, de que o país estivesse enfrentando uma crise aguda da Covid-19, embora com apenas 129 casos confirmados de contaminação. Sua teoria era de que a rede tinha perdido potência porque mais pessoas estavam trabalhando em casa.

Mais tarde, soube-se que as autoridades haviam permitido uma reunião religiosa em massa, em Kuala Lumpur, no final de fevereiro. Quando começaram a surgir os casos da Covid-19 relacionados ao evento, o governo errou os números – primeiro disse que apenas 5 mil participantes eram residentes na Malásia, depois corrigiu para 10 mil, e, depois, para 14,5 mil. Diante do desencontro de informações, muitos optaram por ficar em casa, sobrecarregando a conexão.

Os governos podem até esconder o que acontece dentro de suas fronteiras, como fizeram os mandatários malasianos. Mas é possível chegar a informações verídicas, por meio de dados alternativos. Um bom exemplo: a combinação de dados de transponders de navios com imagens de satélite permite verificar onde estão ancoradas embarcações impossibilitadas de atracar, sejam cargueiros aguardando para entregar mercadorias ou transatlânticos onde estão turistas infectados, impedidos de descer à terra.

Os dados têm um importante papel no combate à pandemia no que diz respeito a “achatar a curva” de expansão da doença, ou seja, conter o crescimento da propagação do vírus para impedir que muitas pessoas necessitem de hospitais ao mesmo tempo, gerando um colapso no sistema de saúde. Os cientistas de dados ajudam a interpretar os números da evolução das infecções, apoiando médicos e tomadores de decisão na área de saúde pública nas estratégias de atendimento. Um recurso de ponta para gerenciar a disseminação da Covid-19 foi desenvolvido pela Johns Hopkins University, dos Estados Unidos. Cientistas criaram um painel que rastreia as taxas de infecção, de recuperação e de mortalidade por localização geográfica. Em outra frente, no contato direto com os profissionais da saúde e com os pacientes, o compartilhamento de dados também tem contribuído para que os cientistas pesquisem medicamentos e vacinas para o novo coronavírus.

Entre tantas medidas benéficas da ciência de dados para enfrentar a pandemia, há também polêmicas. Como o uso dos dados de localização para controlar a propagação do vírus e evitar a aglomeração de pessoas. Essa tecnologia envolve aspectos de proteção à privacidade de dados pessoais. Ainda que tais programas trabalhem com dados chamados “anonimizados” – que podem ser facilmente identificados.

No Brasil, as operadoras de telefonia móvel ofereceram ao governo federal, aos estados e municípios com mais de 500 mil habitantes um serviço de geolocalização da população por meio de um mapa de calor. No dia 20 de abril, o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) soltou comunicado informando a intenção de realizar pesquisas nacionais telefônicas usando os dados pessoais de usuários das operadoras telefônicas. A Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) logo entrou com uma ação de inconstitucionalidade e a ministra Rosa Weber, do Supremo Tribunal Federal (STF), concedeu liminar suspendendo a obrigação das operadoras de telefonia repassarem ao IBGE suas bases cadastrais.

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