Em todas as épocas de eleições sempre vem à tona o debate em torno das pesquisas de intenção de votos. Entender os processos que geram essas avaliações é fundamental, pois são muitos os fatores que impactam as análises, influindo no grau de assertividade dos prognósticos. Recentemente, tanto nos Estados Unidos, quanto no Brasil, os institutos de pesquisa foram alvos de questionamentos. No entanto, por aqui, a margem de erro é bem menor do que lá. As projeções feitas duas ou três semanas antes da votação ficam muito mais próximas da realidade.

Mas por que os institutos brasileiros se saem melhor? São mais competentes? Utilizam algum método especial? Não se trata disso, absolutamente. A questão é que a qualidade das previsões está relacionada a fatores técnicos, como a forma de votação, a maneira como se define o resultado, o método pelo qual os entrevistados são selecionados e abordados.

Para começar, nos EUA, o voto não é obrigatório. Uma pessoa pode responder uma pesquisa, mas, por qualquer motivo, acaba não votando, e a pesquisa acaba contabilizando uma resposta inválida. Com a pandemia e o perigo das aglomerações, esse fator tornou-se ainda mais volátil, dificultando obter um grau confiável de certeza na sondagem.

Outra diferença do pleito norte-americano é que o candidato com maioria nas urnas não necessariamente vence a eleição. É preciso ter maioria dos votos em estados específicos, para ter suficientes votos indiretos (dos delegados). No Brasil (e em todos os outros países com eleições diretas, exceto os EUA), o vencedor é quem recebe mais votos. Simples assim. Por isso, uma seleção aleatória da população basta para se ter uma amostra representativa da probabilidade de vitória.

A construção da narrativa também influencia. Este ano, os analistas norte-americanos foram prejudicados pela experiência da eleição anterior – que também superestimou os votos para Hillary Clinton. E pela demora na apuração – a vantagem inicial de Donald Trump produziu falsas impressões na mídia e na opinião pública. Ao final, a diferença entre a previsão e o resultado foi de pouco mais de três pontos, com margem de erro entre sete e oito pontos, o que ficou dentro da faixa de todas as eleições presidenciais norte-americanas deste século.

A metodologia é mais um ponto sensível. Os institutos de aferição tendem a corrigir, de um pleito para o outro, eventuais desvios. Para contornar erros de 2016 nos EUA, por exemplo, foi dado mais peso a eleitores de baixa renda e menor escolaridade nas áreas rurais. Porém, alterações desse tipo exigem muito cuidado. Fatores conjunturais não podem ser confundidos com tendências estruturais. Como é o caso da pandemia. Se, por exemplo, alguma das quebras de expectativas pesando a favor de Trump derivou do contexto da Covid-19, essa situação dificilmente se repetirá. Por isso, uma correção de metodologia nesse sentido poderia gerar um desequilíbrio em futuras eleições.

Seja pela estrutura do sistema eleitoral ou pelos critérios de pesquisa, o fato é que os prognósticos resultam de contextos que precisamos conhecer e compreender, para evitar conclusões precipitadas ou errôneas. Como em todas as situações que envolvem dados, as informações estão disponíveis. O importante é saber processá-las.

 

Para se aprofundar no assunto: https://fivethirtyeight.com/features/the-polls-werent-great-but-thats-pretty-normal/

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