Amplamente discutidas no dia a dia, as fake news ganham ainda mais evidência em época de eleições. Esse tema tem inquietado os cientistas em duas questões de fundo: o desafio da área de dados e de inteligência artificial para encontrar soluções tecnológicas que separarem conteúdo falso, ou de baixa qualidade, de conteúdo confiável; e a necessidade de uma reflexão ética mais profunda, pois não é só com algoritmos e sistemas que a desinformação será combatida.

A raiz do problema pode ser bem mais profunda. Um estudo publicado na revista Intelligence sugere que algumas pessoas podem ter especial dificuldade em rejeitar informações equivocadas, aumentando sua vulnerabilidade às fake news. Pesquisadores do Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT), em Cambridge, dão um exemplo de como funciona esse mecanismo mental. Eles analisaram 126 mil posts do Twitter de 3 milhões de usuários, ao longo de uma década. O trabalho mostrou que as notícias falsas atingem muito mais pessoas e se espalham muito mais rápido do que as verdadeiras.

Em outro experimento, de 2018, pesquisadores israelenses pediram que voluntários avaliassem a correção gramatical de sentenças sobre política e problemas sociais. Descobriram que os participantes checavam a correção gramatical das sentenças muito mais rapidamente quando concordavam com seu conteúdo. Isso revela que um mecanismo psicológico nos leva a confirmar nossas opiniões prévias, de forma involuntária e automática.

Esse mecanismo é o chamado viés de confirmação, que significa a tendência de uma pessoa em aceitar informações que confirmem suas crenças preexistentes e a ignorar as informações que as desafiam. Eve Whitmore, psicólogo do desenvolvimento da Western Reserve Psychological Associates, em Ohio (EUA), destaca que esse viés é formado no início da vida, quando a criança aprende a distinguir entre fantasia e realidade.

Durante a infância, os pais incentivam as crianças a acreditar em “brincadeiras” que as ajudam a assimilar as normas sociais. Com isso, elas aprendem que a fantasia, às vezes, é aceitável e, quando uma situação as coloca contra as reflexões que consideram certas, surgem as racionalizações preconceituosas. Para evitar conflitos e ansiedade, as pessoas desenvolvem mecanismos de enfrentamento, como o viés de confirmação, ou seja, a tendência humana de buscar e privilegiar informações que estejam de acordo com suas crenças pré-estabelecidas, pouco importando se tais informações são verdadeiras ou não.

O viés da confirmação também é apontado por Jay Van Bavel, professor de psicologia e ciência neural da Universidade de Nova York (EUA), como responsável pela crença nas notícias falsas. Em seus estudos, ele concluiu que a identificação com posições políticas pode interferir no modo como o cérebro processa informações. “Tendemos a rejeitar fatos que ameaçam nosso senso de identidade”, comenta, em um trabalho publicado no Trends in Cognitive Science.

O viés de confirmação é, portanto, a tendência que uma pessoa tem de sempre buscar informações que confirmem suas opiniões, seja por meio de memórias seletivas, leituras de fontes com as quais se identifica ou mesmo interpretando os fatos de determinada maneira – a sua maneira.

 

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