Agora que deixou de ser ficção, o uso de algoritmos para codificar um rosto humano está cada vez mais difundido nos sistemas de segurança pública e nas soluções corporativas de prevenção a fraudes. Adotado por diversos países, o Brasil inclusive, tem sido de grande apoio às polícias. No carnaval de 2019, criminosos procurados foram presos, na Bahia e no Rio de Janeiro, identificados por suas medidas da estrutura facial, únicas para cada indivíduo. No entanto, o reconhecimento facial ainda não está maduro e tem gerado polêmica – principalmente envolvendo questões relacionadas a discriminação.

No Reino Unido, o uso dessa tecnologia pela polícia foi considerado ilegal. Na cidade de South Wales, o ativista Ed Bridges ganhou uma causa contra a polícia, que usou algoritmos para identificar milhares de indivíduos, na maior parte das vezes sem conhecimento das pessoas. Para a corte, tal método de vigilância era ilegal, ineficiente e não oferecia garantias contra o preconceito racial.

Estudos do Massachusetts Institute of Technology (MIT) e do Instituto Nacional de Padronizações e Tecnologia do Departamento do Comércio dos EUA (NIST, na sigla em inglês) explicam o porquê: a tecnologia funciona relativamente bem em homens brancos, mas apresenta resultados menos precisos para outros perfis demográficos – em parte, devido à falta de diversidade nas imagens usadas para criar o banco de dados. As consequências podem ser graves: um homem inocente foi preso, em Michigan, por conta de uma correspondência equivocada na identificação facial.

São Francisco e Oakland já baniram a técnica. Este mês, a Amazon, a Microsoft e a IBM anunciaram que suspenderam a oferta de tecnologias de reconhecimento facial para o uso de forças policiais nos EUA.

A tecnologia vem evoluindo, mas ainda tem limitações. Recentemente, a Universidade de Duke (EUA) desenvolveu uma ferramenta que transforma fotos borradas em retratos com riqueza de detalhes. O sistema, chamado Pulse, converte uma imagem de 16 x 16 pixels em 1.024 x 1.024 pixels. Mas os pesquisadores não recomendam a aplicação para identificar pessoas em imagens de uma câmera, pois o que os algoritmos fazem é criar rostos que não existem, apesar de parecerem reais.

Cynthia Rudin, integrante da equipe, afirma que o Pulse pode ser útil em áreas artísticas e criativas, ima vez que ajuda a compreender um determinado espaço imaginativo. Por exemplo: um astrônomo que tenha um registro borrado de um buraco negro pode usar a ferramenta para “renderizar” cenários astrofísicos possíveis de ter gerado aquela imagem.

A quantidade de usos para o reconhecimento facial cresce velozmente. Um avanço que agrava o cenário e aumenta o desafio, considerando-se que não existe ainda regulamentação dessa tecnologia. Especialistas e empresas do setor anseiam por normas que impeçam utilizações perigosas, mas que permitam à inteligência artificial expandir o seu inimaginável potencial. Como aconteceu no caso do chinês Mao Yin, sequestrado em criança, que pode ser reencontrado 34 anos depois, graças ao envelhecimento artificial de sua foto por meio de técnicas de reconhecimento facial.

BigDataCorp