Ao longo de 2021, pudemos realizar uma série de análises sobre este que pode ser considerado o ano mais atípico do novo milênio. As transformações foram tão profundas, que alguns setores da economia tiveram que se reinventar por completo diante do risco de perderem a relevância. Aos poucos, fomos criando novas formas de relacionamento, seja no trabalho, na vida pessoal ou no comércio. Mudamos a maneira como nos relacionamos com nossa segurança e a segurança de nossos pertences. Por fim, mudamos a forma com que enxergamos o mundo.

Com o setor de dados não foi diferente e a pandemia de Covid-19 provocou profundas alterações na maneira como lidamos com nossos dados e com os dados de terceiros. Ações que antes não imaginávamos sendo realizadas pela internet, da noite pro dia encontraram no universo virtual seu meio de execução mais comum.

Mas seríamos injustos se responsabilizássemos apenas a pandemia por todas as mudanças, sem levarmos em conta importantes adventos como a LGPD que completou 3 anos de sua promulgação e os primeiros passos rumo ao governo digital no país. Tudo isso provocou mudanças consideráveis no universo dos dados.

Mas para entender como isso se deu, vale a pena voltarmos no tempo para analisar os fatos.

 

Linha do tempo 2021: a valorização dos dados

O ano de 2021 começou com o peso de uma legislação que havia acabado de entrar em vigor e que ainda causava muitas dúvidas sobre como as empresas deveriam se adequar às novas regras. Pouco se sabia sobre direitos e deveres de empresas e consumidores, quando a notícia do maior vazamento da história do país reforçou ainda mais a necessidade de entendimento da LGPD por parte de todos. Dados de 223 milhões de brasileiros vazaram, expondo informações de identificação (nome, RG, CPF, título de eleitor), de contato (endereço, e-mail, telefone), de perfil (ocupação, escolaridade, estado civil) e até mesmo informações que, no escopo da LGPD, são sensíveis (renda, pontuação de crédito, e foto de rosto). O número era maior do que o de toda a população brasileira, pois incluía até mesmo informações de pessoas já falecidas.

Como era de se esperar, nos meses seguintes os brasileiros foram bombardeados por uma série de comerciais de TV e internet alertando sobre o risco de vazamentos, o que levantou uma discussão sobre privacidade vs. proteção de dados. Na verdade, a discussão já vinha crescendo desde a criação da chamada economia dos dados anos antes, que trouxe dezenas de empresas cujo modelo de negócios é inteiramente predicado na eliminação da privacidade e na utilização indiscriminada de informações de indivíduos para exibição de anúncios e conteúdo.

O fato é que, desde o início de 2020, a pandemia de Covid-19 vem causando no Brasil e no mundo um aumento no consumo on-line e das transações financeiras realizadas em ambientes virtuais. A consequência disso, obviamente, foi um aumento nos ataques e nas tentativas de fraudes que permanecem até hoje. Em todo o mundo, casos de vazamento mostravam que estávamos expostos a um risco muito além do financeiro, mas que poderiam impactar diretamente a segurança das pessoas.

Por conta disso, no mês de abril, a discussão sobre o valor dos dados tomou conta dos noticiários e de toda a imprensa. Em nosso blog, trouxemos algumas dicas do que não fazer na sua empresa para evitar vazamentos de dados e de como mensurar o valor dos dados. E como normalmente ocorre no universo da tecnologia, o mercado seguiu tentando empurrar a última, mais nova e mais moderna solução para resolver o problema dos vazamentos de dados. Por serem bem efetivas e, na maioria dos casos, oferecerem a possibilidade de uma adoção simples e rápida, as soluções low-tech de proteção de dados ganharam grande destaque no mercado.

Também no mês de abril, no lançamento do iOS 14.5, a Apple atualizou os mecanismos de privacidade de todos os seus dispositivos, implementando o App Tracking Transparency, um sistema que obriga todos os aplicativos a solicitarem permissão dos usuários para poder acessar e coletar seus dados com uma mensagem clara e objetiva, e não escondida em um termo de uso de centenas de páginas. O resultado mostrou que, ao contrário do que se imaginava, os usuários estão sim preocupados com a privacidade: 96% dos usuários nos EUA, e 88% dos usuários ao redor do mundo, optaram por não permitir a coleta e utilização dos seus dados. O debate entre segurança nacional e direito à privacidade volta a esquentar no país e o assunto é abordado em nosso blog em junho, com o artigo “O renascimento da privacidade”.

Mas com tantos vazamentos acontecendo ao mesmo tempo, é comum que se inicie uma caça aos culpados. O termo Accountability ganha grande relevância à medida que as falhas nas legislações vigentes começam a aparecer. Outro assunto que ganhou destaque no mês de maio foi o Governo Digital. De autoria do deputado Alessandro Molon (PSB-RJ), o Projeto de Lei 7843/17 que cria o Governo Digital foi sancionado no final de março pelo presidente Jair Bolsonaro, mas somente dois meses depois é que o assunto ganhou destaque na grande mídia. A proposta era unificar as plataformas on-line de acesso a informações e aos serviços públicos com o objetivo de possibilitar que cidadãos realizassem qualquer tipo de solicitação aos órgãos públicos de forma remota e gratuita.

Pouco mais de um ano após a pandemia de Covid-19 ter chegado no Brasil, análises começaram a ser realizadas sobre novas tendências e os efeitos da pandemia na transformação digital. Mas como falar em transformação digital e inteligência artificial sem se aprofundar na economia dos dados? O tema foi destaque no mês de julho em alguns blogs de tecnologia. Destaque também para a 3ª edição da pesquisa Acessibilidade na web brasileira, lançada pela BigDataCorp e divulgada por alguns dos maiores jornais do país.

Em agosto, a 7ª edição da pesquisa Perfil do E-Commerce Brasileiro mostrou que alcançamos a marca de 1,6 milhão de lojas on-line. O número é 22,05% maior do que o de 2020, e se soma ao crescimento de 40% que já havia acontecido de 2019 para 2020. Nos últimos cinco anos, o aumento foi de 191,6%. E apesar dos números expressivos, a pesquisa também mostrou que ainda há espaço para o crescimento do segmento, uma vez que apenas 6,19% do varejo brasileiro tem um e-commerce.

Mas não poderíamos encerrar o mês de agosto sem comemorarmos os 3 anos da LGPD, seus avanços e conquistas para os brasileiros, como a Agência Nacional de Proteção de Dados (ANPD), que é finalmente constituída e autorizada a iniciar os seus trabalhos. Entre os ganhos de maior relevância estão a definição e a divulgação de instruções normativas e orientações para as empresas que trabalham com dados, a investigação de reclamações e a eventual aplicação de multas e sanções contra quem desrespeitar a lei. Era um momento pelo qual o mercado vinha esperando ansiosamente e que teve um grande impacto sobre as empresas.

Nos meses que se seguiram até o encerramento do ano, a segurança dos dados voltou a ganhar grande destaque na mídia. Um estudo recém-lançado pela BigDataCorp que trouxe dados importantes sobre os efeitos da pandemia no e-commerce brasileiro lançou luz sobre essas transformações e a necessidade de adequação à LGPD, principalmente diante do aumento nas tentativas de fraudes que o setor vinha amargando desde o início da crise sanitária e que ganha mais peso com a proximidade da Black Friday.

E como abrimos o ano com a notícia do maior vazamento de dados da história do país, o fechamento não poderia ser diferente. Faltando 21 dias para o encerramento do ano, hackers invadiram o site do Ministério da Saúde e roubaram dados de algumas pessoas. Para o bem de todos e felicidade geral da nação, a pasta informou que o ataque não causou muitos danos e que a quantidade de dados roubada era bem pequena, diante da gigantesca base de dados do SUS. No entanto, alguns dias antes, o jornal Folha de S.Paulo publicou uma denúncia de que dados completos de milhões de brasileiros estavam expostos na internet em sites que podiam ser acessados por quem se dispusesse a pagar uma mensalidade em torno de R$ 200. Segundo a reportagem, trata-se de páginas criminosas que reúnem cadastros vazados de vários sites oficiais, entre eles, o CadSUS.

Seja qual for o tamanho do vazamento ocorrido no último mês do ano, a reflexão que precisa ser feita é: após um ano inteiro de debates e medidas visando aumentar a segurança dos dados dos usuários na internet, o quanto conseguimos avançar neste sentido e o que ainda precisa ser feito e cobrado das autoridades em 2022.

 

Tendências para 2022

Este assunto será abordado com maior profundidade em um próximo artigo. Contudo, podemos adiantar que, diante de tantos acontecimentos no universo dos dados nos últimos 12 meses, é fácil prever algumas tendências para os próximos anos como, por exemplo, no quesito segurança.

Para quem pensa que o problema dos vazamentos de dados é coisa do passado, lamentamos informar que, de acordo com previsões de especialistas, a tendência é que enfrentemos vazamentos de dados cada vez maiores no próximo ano, não somente pela quantidade crescente de dados coletados pelas empresas, mas também por um novo tipo de dados que começa a chamar a atenção do mercado.

Ficou interessado? Então aguarde o nosso próximo artigo sobre as tendências para 2022.

BigDataCorp